terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Voltando no Tempo I

Todo dia era a mesma coisa... Camota abria o olho e, do alto dos seus cinco anos, corria até a janela do quarto e gritava: "Lucaaaaaaaaaaaaa!!". Pronto, essa era a senha para o futebol. Lá do outro lado da rua, Dona Judith já ligava o liquidificador e com a vitamina pronta esperava Luca na beira da escada. Como num ataque ninja, conseguia imobilizar o filho e fazê-lo engolir o suposto café da manhã. Fazia tudo isso sorrindo, sem dizer uma palavra. Os olhos de Judith sempre falaram mais alto.
Camota era o melhor amigo de Luca. Amizade criada por osmose. Uma diferença de apenas cinco meses dividia o que o mundo inteiro unia. Esse mundo tinha limites bem desenhados: a rua e a escola. Para eles, o mundo era deles e não eles do mundo.
Loirinho dos olhos de mel e de temperamento mais que agridoce. Esse era Camota, ou melhor: Afrânio Arnaldo Siqueira de Britto. Desde bem pequeno, ele sentia o peso que seu nome trazia, sabia que não tinha apenas um nome, mas sim, uma marca. Seus pais eram médicos e seu avô um renomado político de carreira, até então, ilibada.
O apelido Camota saiu da cabeça inventiva de Luca, e eles (até hoje) não lembram o porquê...

Prólogo do Prólogo

Batia à porta como se fosse a última coisa a se fazer no mundo. Batidas compassadas, de métrica perfeita. A mão tocava a madeira com exatidão. O sol não parecia demonstrar pena, firmando seu foco sobre seus cabelos curtos e ruivos, deflagrando alguns fios loiros perdidos naquele fogo todo. A pele alva com pequenas sardas, já em tons de vermelho, pedia: "por favor, já chega! Ela não vem...". Mas Luca parecia decidido e ritmado em suas batidas.
Lá de dentro, nenhum ruído. Mas ela estava lá. Sim, estava e parecia não se importar. Os fones quase perfuravam seus tímpanos, o volume no talo. Ela quase podia sentir a língua de Jagger, dançar por seus ouvidos, enquanto cantava Jumping Jack Flash. Não, ela não se importava. Acabara de fumar seu penúltimo baseado e dançava como se fosse a última coisa a se fazer no mundo. Seu quarto ficava no sótão, de lá ela via Luca sofrendo, sentado, encostado de lado na porta, batendo... A imagem fazia Clara rir baixinho.
Clara sempre foi calma e quente.