A mão deslizava pelo rosto, quase como um toque de pluma. Havia nesse gesto uma mistura heterogênea de sentimentos; carinho, zelo, medo e desespero, que quando chegavam à boca, diziam ao ouvido, como num sussurro de prece: "Camota. Camota..."
Risco de olho. Estremecida.
Calma, sou eu, Clara. Tá tudo bem.
O dia já era outro e todos estavam bem.
Camota saiu praticamente ileso, Luca quebrou o braço e Zu quebrou o braço, a perna e levou alguns pontos na cabeça.
Passado o susto, mas não a sensação de ameaça, Clara só pensava: "de onde saiu garota?". Era mais forte que ela, era o que havia de mais primitivo, pulsando sem parar.
Eles estavam no hospital da família de Camota, estava tudo certo, excetuando o fato de ninguém conseguir contato com a família de Zu. Ela estava sem documentos na bolsa, sem celular e desacordada.
O temperamento dramático de Camota veio de Inezita, que andava indignada pelos corredores, de um lado pro outro, bufando: "Que tipo de pessoa fica sem estepe?! Como alguém viaja sem fazer um check up geral no carro?! Como??? Onde foi que eu errei, pai Freud?! Judith tranquila, ria da amiga.
Elas também eram opostos complementares.
No outro dia, todos foram pras suas casas, inclusive Zu. Seus tios apareceram e adivinha só? Eles moram muito mais perto do que imaginavam, apenas três quadras separam os novos amigos, que, de cara, já passaram por uma emoção tão forte.
E nessa feliz descoberta pra todos, era como se a lente fosse do macro ao micro, focando no sorriso amarelo de Clara. Pra piorar, Zu era tão simpática e tão desencanada, que fazia com que Clara se sentisse cada vez mais primata. Ainda mais ela, a rainha sororidade, a estudante de sociologia da federal, a que luta pelos direitos iguais, a feminista de carteirinha. A conta estava alta demais pra ela, seu lado egóico e territorialista estava patrolando com seus ideais de vida.
Redes sociais e números de telefone devidamente interligados, é hora de dar tchau.
Nessa hora, quem parecia toda quebrada era Clara.
Melhor ir pra casa.
segunda-feira, 16 de maio de 2016
Luca
Foi o 22 de outubro mais ensolarado que existiu. Pelo menos era assim que Judith contava. A gestação de Luca, além de muito especial, requeriu cuidados extra. Ele veio quando não havia mais esperança, Judith já estava com 45 anos e conformada por não conseguir ter filhos. Foram três gestações interrompidas, depois de muitas tentativas frustardas.
Luca nasceu prematuro, com aproximadamente 3kg e uma fome de leão. A fome veio como herança genética, já que seu pai, o conceituado escritor Jeferson Haasner, era um guloso assumido.
Seu temperamento era doce e seu mundo interno era rico demais. Eram tantos os amigos imaginários, que já faziam parte da família e da obra literária do seu pai. O livro "Nossos amigos imaginários", onde Jef contava como sentia a experiência de ser pai sob a narrativa do seu amigo, também pai, imaginário, lhe trouxe muitos prêmios, notoriedade, tornou-se um best-seller e lhe abriu uma nova forma de monetização: as palestras em escolas, empresas, shoppings. Jef pôs o pé na estrada e a vida dos Haasner melhorou muito.
Quando Luca fez quatro anos, a família mudou-se para a casa dos sonhos! Ele se lembra até hoje de brincar por entre as pilhas de caixas de mudança.
O primeiro encontro foi uma semana depois, na pracinha do condomínio. Camota apareceu com uma bola do time do coração de Luca. Foi amor ao primeiro chute! Na hora do tchau, um abraço apertado que nunca mais soltou.
Pouco menos de um ano da mudança, Juduth teve um câncer no colo do útero e teve que retirá-lo. O tratamento foi pesado, difícil, mas ela venceu. Existia um sentimento de gratidão à vida, mas esse primeiro contato com a sua finitude e a preocupação em deixar seu filho sem mãe, foi impactante demais. A depressão foi cavalar.
Ela era advogada, mas exercia há quinze anos o cargo de procuradora do estado. A doença fez com que ela pedisse o afastamento de um ano do cargo. No período mais agudo da crise, Jef segurou bravamente, tudo. Ele fez o papel de pai, mãe, amigo e marido, como poucos.
E é aí que a mãe de Camota entra na história. Inezita era psiquiatra e a proximidade, ainda que só dos filhos, a impedia de tratá-la, mas não de indicar a melhor terapeuta, e, por fora, tornar-se papel importante na recuperação de Judith.
Entre elas, também houve um primeiro abraço que nunca mais soltou...
Luca lembra da mãe por muito tempo na cama e das histórias que ele e seus amiguinhos imaginários contavam pra ela, enquanto ela dormia.
Luca nasceu prematuro, com aproximadamente 3kg e uma fome de leão. A fome veio como herança genética, já que seu pai, o conceituado escritor Jeferson Haasner, era um guloso assumido.
Seu temperamento era doce e seu mundo interno era rico demais. Eram tantos os amigos imaginários, que já faziam parte da família e da obra literária do seu pai. O livro "Nossos amigos imaginários", onde Jef contava como sentia a experiência de ser pai sob a narrativa do seu amigo, também pai, imaginário, lhe trouxe muitos prêmios, notoriedade, tornou-se um best-seller e lhe abriu uma nova forma de monetização: as palestras em escolas, empresas, shoppings. Jef pôs o pé na estrada e a vida dos Haasner melhorou muito.
Quando Luca fez quatro anos, a família mudou-se para a casa dos sonhos! Ele se lembra até hoje de brincar por entre as pilhas de caixas de mudança.
O primeiro encontro foi uma semana depois, na pracinha do condomínio. Camota apareceu com uma bola do time do coração de Luca. Foi amor ao primeiro chute! Na hora do tchau, um abraço apertado que nunca mais soltou.
Pouco menos de um ano da mudança, Juduth teve um câncer no colo do útero e teve que retirá-lo. O tratamento foi pesado, difícil, mas ela venceu. Existia um sentimento de gratidão à vida, mas esse primeiro contato com a sua finitude e a preocupação em deixar seu filho sem mãe, foi impactante demais. A depressão foi cavalar.
Ela era advogada, mas exercia há quinze anos o cargo de procuradora do estado. A doença fez com que ela pedisse o afastamento de um ano do cargo. No período mais agudo da crise, Jef segurou bravamente, tudo. Ele fez o papel de pai, mãe, amigo e marido, como poucos.
E é aí que a mãe de Camota entra na história. Inezita era psiquiatra e a proximidade, ainda que só dos filhos, a impedia de tratá-la, mas não de indicar a melhor terapeuta, e, por fora, tornar-se papel importante na recuperação de Judith.
Entre elas, também houve um primeiro abraço que nunca mais soltou...
Luca lembra da mãe por muito tempo na cama e das histórias que ele e seus amiguinhos imaginários contavam pra ela, enquanto ela dormia.
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