segunda-feira, 16 de maio de 2016

Pré/pós Trauma

A mão deslizava pelo rosto, quase como um toque de pluma. Havia nesse gesto uma mistura heterogênea de sentimentos; carinho, zelo, medo e desespero, que quando chegavam à boca, diziam ao ouvido, como num sussurro de prece: "Camota. Camota..."
Risco de olho. Estremecida.
Calma, sou eu, Clara. Tá tudo bem.
O dia já era outro e todos estavam bem.
Camota saiu praticamente ileso, Luca quebrou o braço e Zu quebrou o braço, a perna e levou alguns pontos na cabeça.
Passado o susto, mas não a sensação de ameaça, Clara só pensava: "de onde saiu garota?". Era mais forte que ela, era o que havia de mais primitivo, pulsando sem parar.
Eles estavam no hospital da família de Camota, estava tudo certo, excetuando o fato de ninguém conseguir contato com a família de Zu. Ela estava sem documentos na bolsa, sem celular e desacordada.
O temperamento dramático de Camota veio de Inezita, que andava indignada pelos corredores, de um lado pro outro, bufando: "Que tipo de pessoa fica sem estepe?! Como alguém viaja sem fazer um check up geral no carro?! Como??? Onde foi que eu errei, pai Freud?!  Judith tranquila, ria da amiga.
Elas também eram opostos complementares.
No outro dia, todos foram pras suas casas, inclusive Zu. Seus tios apareceram e adivinha só? Eles moram muito mais perto do que imaginavam, apenas três quadras separam os novos amigos, que, de cara, já passaram por uma emoção tão forte.
E nessa feliz descoberta pra todos, era como se a lente fosse do macro ao micro, focando no sorriso amarelo de Clara. Pra piorar,  Zu era tão simpática e tão desencanada, que fazia com que Clara se sentisse cada vez mais primata. Ainda mais ela, a rainha sororidade, a estudante de sociologia da federal, a que luta pelos direitos iguais, a  feminista de carteirinha. A conta estava alta demais pra ela, seu lado egóico e territorialista estava patrolando com seus ideais de vida.
Redes sociais e números de telefone devidamente interligados, é hora de dar tchau.
Nessa hora, quem parecia toda quebrada era Clara.
Melhor ir pra casa.


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