Foi o 22 de outubro mais ensolarado que existiu. Pelo menos era assim que Judith contava. A gestação de Luca, além de muito especial, requeriu cuidados extra. Ele veio quando não havia mais esperança, Judith já estava com 45 anos e conformada por não conseguir ter filhos. Foram três gestações interrompidas, depois de muitas tentativas frustardas.
Luca nasceu prematuro, com aproximadamente 3kg e uma fome de leão. A fome veio como herança genética, já que seu pai, o conceituado escritor Jeferson Haasner, era um guloso assumido.
Seu temperamento era doce e seu mundo interno era rico demais. Eram tantos os amigos imaginários, que já faziam parte da família e da obra literária do seu pai. O livro "Nossos amigos imaginários", onde Jef contava como sentia a experiência de ser pai sob a narrativa do seu amigo, também pai, imaginário, lhe trouxe muitos prêmios, notoriedade, tornou-se um best-seller e lhe abriu uma nova forma de monetização: as palestras em escolas, empresas, shoppings. Jef pôs o pé na estrada e a vida dos Haasner melhorou muito.
Quando Luca fez quatro anos, a família mudou-se para a casa dos sonhos! Ele se lembra até hoje de brincar por entre as pilhas de caixas de mudança.
O primeiro encontro foi uma semana depois, na pracinha do condomínio. Camota apareceu com uma bola do time do coração de Luca. Foi amor ao primeiro chute! Na hora do tchau, um abraço apertado que nunca mais soltou.
Pouco menos de um ano da mudança, Juduth teve um câncer no colo do útero e teve que retirá-lo. O tratamento foi pesado, difícil, mas ela venceu. Existia um sentimento de gratidão à vida, mas esse primeiro contato com a sua finitude e a preocupação em deixar seu filho sem mãe, foi impactante demais. A depressão foi cavalar.
Ela era advogada, mas exercia há quinze anos o cargo de procuradora do estado. A doença fez com que ela pedisse o afastamento de um ano do cargo. No período mais agudo da crise, Jef segurou bravamente, tudo. Ele fez o papel de pai, mãe, amigo e marido, como poucos.
E é aí que a mãe de Camota entra na história. Inezita era psiquiatra e a proximidade, ainda que só dos filhos, a impedia de tratá-la, mas não de indicar a melhor terapeuta, e, por fora, tornar-se papel importante na recuperação de Judith.
Entre elas, também houve um primeiro abraço que nunca mais soltou...
Luca lembra da mãe por muito tempo na cama e das histórias que ele e seus amiguinhos imaginários contavam pra ela, enquanto ela dormia.
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